Perfil | Fernanda Liberti

Fernanda Liberti é uma artista que a Piscina acompanha desde 2015 e entra ano, sai ano, fica cada vez mais fácil amar o trabalho dela. As fotografias da Fernanda são tão vivas e sinceras que fazem com que a gente se conecte facilmente com as personagens e paisagens ali retratadas. Ao mesmo tempo, o cuidado com a composição, com a cor e a luz é algo que salta aos olhos e faz suas imagens se tornarem ainda irresistíveis.

Através de paisagens naturais, corpos e cenários surreais, seu trabalho é uma tentativa de entender a nossa relação com as mudanças constantes nos ambientes em que vivemos, um estudo para explorar os papéis e experiências pós-coloniais de pessoas de cor, mulheres e pessoas LGBTQ+ no século XXI.

Fernanda Liberti nasceu em 1994 no Rio de Janeiro. Em 2013, aos 19 anos, mudou-se para Londres, na Inglaterra, onde se formou-se em fotografia na University of Arts em 2017. Depois de uma temporada de volta ao Brasil, Fernanda retornou a Londres para fazer seu mestrado no Royal College of Art, porém, devido à pandemia de covid-19, a artista encontra-se no Brasil, onde se mantém desenvolvendo projetos e escrevendo sua tese.

Fernanda Liberti

Fernanda Liberti

Você pode contar um pouco sobre sua formação e trajetória? Como se deu a escolha de trabalhar como artista?

Sempre me interessei por arte, algo que veio da minha mãe, mas quando eu era criança queria ser estilista de moda igual a minha bisavó. Quando fui crescendo, não me sentia representada pela indústria da moda e comecei a ficar curiosa sobre a fotografia. Minha mãe me disse que eu deveria escolher algo que me fizesse feliz e naquela época, quando eu tinha mais ou menos uns treze anos,  eu ficava muito feliz com as fotos ruins que eu tirava, era um sentimento de alegria que ficava comigo por alguns dias, então eu decidi que queria fazer fotografia.

Aos 14 anos comecei a fotografar com a câmera analógica do meu pai e foi então que comecei a desenvolver o meu olhar. Sempre sonhei em estudar fora e aos 17 anos comecei o processo de admissão para a University of the Arts London, passei, e com 19 anos fui sozinha estudar em Londres onde me graduei em fotografia em 2017. Desde então eu trabalho com fotografia e vídeo, entre o Brasil e a Inglaterra..

Qual sua pesquisa atual e que trabalhos você tem desenvolvido nos últimos tempos?

O meu último projeto autoral finalizado se chama Tamarán, um estudo sobre a vivência que eu tive na cidade de Agaete, nas Ilhas Canárias. Foi um projeto muito especial para mim porque ele foi inspirado no livro ‘A field guide to getting lost’ da Rebecca Solnit, que fala sobre nos permitir se perder e se entregar à natureza e aos caminhos que a vida nos propõe. Não fui lá com a intenção de fazer um projeto (além dos vídeos que eu tinha que fazer pro hostel que eu troquei trabalho por hospedagem) , mas sentia que aquele lugar me contava uma história. 

Nesta vivência, fiz minha primeira trilha sozinha por montanhas vulcânicas e a primeira vez na minha vida adulta que eu morei e conheci pessoas aleatórias que eu não tinha nenhuma referência, em uma ilha que eu desconhecia no meio do Oceano Atlântico. Eu fui completamente levada pela minha intuição e as paisagens desse lugar, que me guiaram a criar esse trabalho que lida sobre temas como paisagem, ecologia, pertencimento, memórias afetivas e perdas como consequências da colonização Espanhola. 

Atualmente estou desenvolvendo a minha tese de mestrado no qual irei tratar sobre objetos e artefatos brasileiros retirados durante a colonização, focando nos mantos Tupinambás que estão em museus europeus. Tenho trocado com muitas pessoas incríveis, incluindo a Glicéria Tupinambá, que recentemente confeccionou o manto em sua aldeia. Infelizmente por causa da pandemia, toda a minha pesquisa tem sido remota, o que é frustrante para quem acredita na academia pessoal e com trocas reais.

Fernanda Liberti, Berlin, 2019.

Fernanda Liberti, Berlin, 2019.

Quais fatos, trabalhos ou experiências mais relevantes/marcantes contribuíram ou afetaram de alguma forma a sua trajetória? 

Acho que crescer no Brasil, mas especialmente no Rio, influenciou significantemente o meu trabalho.

Sempre morei perto da praia, da natureza de alguma forma, e isso influencia como eu experiencio o mundo e a arte. Passei grande parte da minha vida rodeada por essas montanhas que abraçam a cidade. Esse contraste entre a natureza e o caos da cidade moderna e populosa são temas que eu exploro nos meus trabalhos.
— Fernanda Liberti

Tenho um amigo estrangeiro que me visitou no Rio e disse que foi aí que ele realmente entendeu o meu trabalho, as cores, e tudo que eu gostava de retratar. 

Minha mãe foi a minha primeira professora de artes, ela amava me levar a museus e me contar a história dos pintores e dos quadros que ela havia estudando na faculdade, e que muitos deles ela viu pessoalmente pela primeira vez comigo. Tive uma infância privilegiada que me permitiu ter essas vivências muito cedo, que moldaram a minha visão de mundo. 

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Estudar em Londres também foi um grande divisor de águas na minha trajetória. Foi na University of the Arts London que entendi o que era ser artista e me reconheci de verdade como tal. Lá eu tive que lutar para defender as minhas idéias e os nus esquisitos que eu fazia naquela época rs. Além de técnica e estrutura (que digamos, a deles é incrível),  eles me ensinaram a expandir o meu pensamento crítico e teórico, e como chegar do ponto A ao ponto Z, de como construir e desconstruir uma ideia. Até hoje sinto falta das sessões de crítica que tive lá. 

Em relação aos trabalhos, foram muitos nos últimos dez anos como fotógrafa, mas tiveram alguns que foram especialmente marcantes. O primeiro, que foi fotografando a festa infantil de uma amiga da minha mãe, a Paula, que por sinal quando eu estava começando me deu uma mala de equipamentos que eu uso muito até hoje (Obrigada Paula!). Essa mala com certeza contribuiu muito pro desenvolvimento do meu trabalho porque seria impossível fazer esse investimento de equipamento naquela época. 

Quais são suas perspectivas como artista? Como se vê daqui um tempo? Tem algum projeto que deseja realizar mais a longo prazo? 

Me vejo fazendo exatamente o que eu estava fazendo antes da pandemia começar: viajando com e pelo meu trabalho, conhecendo lugares novos, inspirando e sendo inspirada pelas belezas, culturas e curiosidades do mundo. Meu maior desejo é ser tipo a Gloria Maria, conhecer mais de 150 países. A maioria dos meus projetos de longo prazo são sobre viagens e vivências em lugares novos, principalmente dentro do Brasil. Além de conhecer o mundo, o meu maior desejo é ter a possibilidade de desenvolver um projeto que mostre a diversidade, força e riqueza do nosso país. 

Eu também flerto com a idéia de escrever alguns livros (tanto de fotografia quanto de textos) e dar aula, a academia sempre me atraiu porque eu amo estudar, ler e conhecer coisas novas. 

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Que mulheres (artistas, escritoras, familiares e figuras públicas) foram/são influências e fonte de inspiração? 

Eu tenho muitas inspirações artísticas, como: Nan Goldin, Kristin-Lee Moolman, Deize Tigrona, Tati Quebra Barraco, Zhong Lin, Noemi Goudal, Letrux, M.I.A., Janaina Tschape, Donna Tartt, Rebecca Solnit, minha mãe e muitas, muitas outras.

Porém, a minha maior inspiração artística foi a minha bisavó, America, que era estilista e costureira. Nunca vou esquecer da roupa de Iemanjá a prova d’agua que ela fez para eu usar na festa da aula de natação. Uma mulher que ajudou a tirar a família da pobreza com o seu trabalho e venceu duas batalhas contra o câncer, além de ser incrivelmente talentosa e acima de tudo, muito forte e debochada.  

O que você faz para se motivar em períodos de baixa/desânimo/bloqueio criativo?

Nado no mar, passeio de bicicleta, ligo pra um amigo, vou dar uma volta… procuro qualquer verde pra ficar perto. Passei a abraçar esses períodos para focar em desenvolver outras energias, ler livros, procurar referências, e quando eu menos espero, aparece a inspiração desejada. É tipo romance, se você corre atrás, ele foge de você. Aprendi que quanto mais você forçar, menos flui. Gosto de deixar as ideias se manifestarem de uma maneira orgânica e natural.

Como você enxerga o papel da sua atuação como mulher artista no cenário artístico atual?

Achei essa pergunta difícil! Eu não passo muito tempo pensando no meu papel e sim no que eu quero fazer. Faço o que eu faço para mim e pra outras pessoas que se conectam e se inspiram com o que eu produzo. O meu papel é o de artista que se dedica constantemente para viver como tal. Apesar da pandemia, tanto ano passado quanto neste, eu senti que as coisas deram um grande salto, agora sou representada pela H.A. Management, trabalhei e apareci em revistas grandes, e sinto que depois de muitos anos o meu trabalho começou a ser levado mais a sério e reconhecido, porém passei muitos anos me sentindo desvalorizada dentro do cenário. 

Quais foram os impactos e desdobramentos da pandemia para você nos âmbitos profissional e emocional? 

Estou triste ou sou apenas Brasileira? Me fiz essa pergunta várias vezes nos últimos anos, mas especialmente nos últimos meses-ano.. Os panelaços todos os dias as 7pm em ponto, durante semanas da quarentena, ainda ecoam na minha cabeça. Eu sempre me interessei muito sobre política, assuntos gerais, ler jornais, mas paro de vez em quando porque se torna uma angústia sem fim. 

O Brasil é a minha raiz, a minha casa, mas é complicado habitar dentro dele. Eu me inspiro pela rua, pelo movimento, pela muvuca, então tem sido bem difícil ficar sem tudo isso, tanto criativamente como emocionalmente. Profissionalmente tem sido complicado nesse período, estou há mais de um mês sem set e todos os trabalhos foram adiados, mas tenho tentado usar esse tempo para pesquisar e ler.

Fernanda Liberti, 2020.

Fernanda Liberti, 2020.

Esse foi um dos fatores que te levaram a retornar à Londres? 

Sim e não, li um texto outro dia que eu me identifiquei muito: “Eu tentei fugir do Brasil, mas aonde eu ia, o Brasil tava” (@abrantescadu). Eu nunca consegui me desligar do Brasil.  Eu estava na Alemanha durante a eleição de 2018 e passei o mês inteiro chorando pelos cantos e triste, não me sentia melhor ou mais protegida por estar em outro país. Não importa onde eu esteja, sempre sei de tudo que acontece aqui e me preocupo muito com o presente e o futuro do nosso país e de quem o habita. 

Saí de Londres em 2017 por motivos pessoais, e sinto que por isso não pude ver até onde o meu trabalho poderia me levar lá. Sempre sonhei em estudar na Royal College e quando a oportunidade surgiu, agarrei. Voltei pra lá mais por esse sonho do que qualquer outra coisa, de expandir a minha prática e estudar no mesmo mestrado que vários artistas que eu admiro estudaram também.

Você comentou que todos seus trabalhos têm a ver com viagens e vivências em outros lugares e você também já morou em diversos países. Como você vê esse “nomadismo" refletido no seu trabalho?

O novo me excita, me dá tesão. Pegar um ônibus, um barco, um trem. Eu gosto de sentir o movimento no corpo. Apesar de falar muito, também me interesso pela comunicação não-verbal, e aprendi que cada rua, cidade, pessoa e até planta, tem uma história pra contar, e eu amo ouvi-las.
— Fernanda Liberti
Fernanda Liberti, 2015.

Fernanda Liberti, 2015.

O mundo é pequeno demais pra gente ficar parado, e acho que aí que entra o ascendente em áries, e essa ânsia de fazer e conhecer tudo. Sou muito curiosa e quero saber como as pessoas comem, falam, se vestem, e se expressam em cada lugar, e isso me inspira profundamente. A vida virtual me murcha e deprime, porque eu gosto de olhar no olho, dar abraço. Já conheci tanta gente, de todo tipo, em tantos lugares, e sinto que cada uma delas me deu um pedacinho de si, e eu um meu, e acaba virando essa coletânea de vivências e histórias que com certeza enriquecem o meu trabalho e as minhas referências. Apesar de muitas vezes ir pra algum lugar que não sei nada sobre, sempre faço questão de estudar sobre a histórica local, e isso expande muito no nosso conhecimento, não só sobre assuntos gerais mas sobre o mundo e sobre a essência humana. 

Acho que o nomadismo se reflete na versatilidade, porque me sinto confortável em explorar vários tipos de sujeitos nas minhas fotos; pessoas, paisagens, roupas, cores, histórias. 

Você comentou que o Brasil é sua casa, mas sendo uma pessoa que já viajou e residiu em diversos locais, o que te conecta com o sentimento de (sentir-se em) casa? 

Sentir-se em casa é realmente um conceito curioso. No Brasil me sinto em casa pela memória afetiva, pela religião, por poder andar por ruas de olhos fechados e não me perder, pela comida, pelo idioma e as referências que só nós temos.  Porém, já me senti em casa em lugares que eu nunca imaginei, e já estive no Brasil e me senti muito longe de casa. Acho que é uma junção de sentimentos. 

Como é um dia normal na sua rotina? 

O que é rotina? Sou de gêmeos, com lua em gêmeos e ascendente em áries então rotina é uma coisa que eu não faço muito bem.

Como você planeja seus próximos trabalhos e projetos? 

Depende de muitas coisas. Geralmente começa com algo simples: uma ideia, ou lugar, objeto. Às vezes é alguém que me inspira, e fico com o desejo de fotografar essa pessoa. Como tudo na minha vida, nada é convencional ou linear: as vezes primeiro vem a foto, depois o ‘conceito’, e acabo entendendo que eu sempre soube o conceito mas ele se expressa primeiro no subconsciente, na imagem em si, e depois na teoria. Já fiz muita foto sem entender porque e depois pensar “Ah… claro!” e parece um quebra cabeça se encaixando.

Crio muito com a intuição e o coração, principalmente em projetos autorais, que geralmente representam algum momento ou assunto que estou vivendo na minha vida pessoal.  Gosto de pensar no meu processo criativo como uma trilha em uma mata conhecida que não é visitada há um tempo. 
— Fernanda Liberti
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Qual o seu entendimento sobre a necessidade e importância de se ter iniciativas voltadas exclusivamente às mulheres e outros grupos minoritários?

Acho de extrema importância. Os homens do topo sempre tiveram as suas panelinhas, seitas e clubes, e porque nós não podemos criar iniciativas para nos fortalecer e  enriquecer? O mundo da arte, como qualquer outro que habitamos, é machista. Como tão expressivamente falaram as Guerrilla Girls, é mais fácil uma mulher entrar em um museu pelada do que como artista. E isso é uma realidade até hoje.

Eu estou cansada de ver mulheres incríveis com metade do reconhecimento e autoestima de homens medíocres, então acho necessário termos iniciativas que nos colocam sim no protagonismo de nossas histórias.
— Fernanda Liberti
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